terça-feira, 20 de maio de 2008

Equilíbrios pontuados


Os parágrafos a seguir sintetizam parte das idéias de Yochai Benkler, professor da Escola de Direito de Harvard e co-diretor do Centro Berkman para Internet e Sociedade – organização sem fins lucrativos, ligada à Harvard, cuja missão é explorar e entender o ciberespaço, sua dinâmica de desenvolvimento, normas, padrões, e suas relações com as leis e sanções.Benkler é autor de The Wealth of Networks, lançado em 2006, ainda sem tradução para o português.
Este livro, que foi premiado por diversas instituições americanas, analisa o que o autor chama de “produção social", um modelo propiciado pela internet. Diz Benkler:

"A produção social desenvolve-se de forma alheia a mercados e hierarquias, que são a base dos métodos produtivos praticados tradicionalmente". Segundo Yochai Benkler, essa produção social é capaz de gerar riqueza nesse novo modelo econômico, baseado em uma rede interconectada da informação, em que a produção pode ser feita de forma não coordenada e com a participação do consumidor na produção e co-criação de produtos e serviços.

Seguem algumas considerações sobre o capítulo 1.

Apenas recentemente nós começamos a ver um jogo político sobre a política de informação e “propriedade intelectual”. Este contramovimento político está ligado a características bastante básicas da tecnologia de comunicação em rede e a práticas crescentes de compartilhamento – algumas, como o compartilhamento de arquivos peer-to-peer, em oposição direta a pleitos proprietários; outros, crescentemente, são instâncias de práticas emergentes de fazer informação em modelos não proprietários e de indivíduos compartilhando o que eles próprios fizerem socialmente, ao invés de padrões de mercado. Essas forças econômicas e sociais estão empurrando uma à outra em direções opostas, e cada uma está tentando moldar o ordenamento jurídico para melhor acomodar seus requisitos. Uma rica literatura em Direito se desenvolveu em resposta a este crescente fechamento nos últimos anos. Segundo Benkler, ela alcançou a sua maior expressão nos argumentos do professor Lawrence Lessig, fundador do Creative Commons. Seu último livro "The Future of Ideas" já está disponível na rede desde janeiro.Agora, todos os quatro livros publicados por Lessig estão disponíveis em licenças Creative Commons.
A organização social e econômica não é infinitamente maleável. Tampouco é sempre aberta a um projeto afirmativo. As práticas de interação humana, como produção de informação, conhecimento e cultura, são conseqüências de um efeito entre práticas sociais, organização econômica, capacidades tecnológicas e limitações formais no comportamento por meio de leis e instituições formais similares. Durante períodos de estabilidade, estes componentes estruturais dentro dos quais seres humanos vivem estão na maior parte alinhados e se validam mutuamente, mas a estabilidade está sujeita a choque em qualquer dessas dimensões.
Algumas vezes o choque vem em forma de uma crise econômica, como nos Estados Unidos durante a Grande Depressão. Frequentemente ele pode vir de uma ameaça física externa a instituições sociais, como uma guerra. Algumas vezes pode vir da tecnologia, como, por exemplo, a introdução da imprensa mecânica de alta capacidade que introduziu a era da mídia de massa. Em cada caso, o período de crise ofereceu mais oportunidades e maiores riscos do que períodos de relativa estabilidade.

Pegando emprestado o termo de teoria evolucionária usado por Stephen Jay Gould, sociedades humanas existem em uma série de equilíbrios pontuados. Os períodos de desequilíbrio não são necessariamente longos. Meros vinte e cinco anos se passaram entre a invenção do rádio e a sua adaptação ao modelo da mídia de massa. Um período similar se passou entre a introdução do telefone e a sua adoção da forma de monopólio utilitário que permitiu apenas comunicações limitadas. Em cada um destes períodos, muitos caminhos poderiam ter sido seguidos. O rádio nos mostrou mesmo dentro do século passado como, em algumas sociedades, caminhos diferentes foram seguidos e depois sustentados através de décadas. Após um período de instabilidade, porém, os vários elementos de limitação do comportamento humano e das capacidades se estabelecem em um novo alinhamento estável. Durante períodos de estabilidades, nós podemos provavelmente esperar pouco mais do que retocar as arestas da condição humana (p.27)


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